O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) implementou mudanças inéditas em suas diretrizes de inclusão, permitindo que estudantes com histórico de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ou crises severas de ansiedade realizem o exame acompanhados por cães de apoio emocional ou por um acompanhante humano. Além disso, pessoas diagnosticadas com fibromialgia passaram a ter direito formal a recursos de acessibilidade e atendimento especializado.
Estrutura para acolhimento emocional
Para usufruir dessas condições, os participantes precisavam ter anexado laudos comprobatórios durante a inscrição e obtido o aval do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Conforme o edital, o acompanhante indicado pelo participante permanece aguardando em uma sala separada e fiscalizada, ficando disponível caso o estudante sofra uma crise e precise de estabilização.
O ministro da Educação, Leonardo Barchin, ressaltou o papel central desse acolhimento familiar no ambiente avaliativo:
“Se tiver o laudo adequado e a solicitação aprovada, se esse candidato, por exemplo, precisar ir ao banheiro, se houver outra necessidade, terá um acompanhante familiar. Este apoio emocional é muito importante.”
O ministro completou afirmando que “O Enem deve ser acessível e cada vez mais inclusivo. Todos os anos, a gente evolui nessa questão.”
Perfil das solicitações de atendimento especializado
Ao todo, o exame contabilizou 138.329 solicitações deferidas para adaptações especiais. De acordo com os dados oficiais, as condições mais recorrentes entre os pedidos foram:
- Déficit de atenção: 51.724 participantes (37,39%);
- Transtorno do Espectro Autista (TEA): 34.723 participantes (25,10%);
- Baixa visão: 9.792 participantes (7,04%);
- Deficiência intelectual: 8.922 participantes (6,45%).
No que diz respeito às ferramentas práticas requisitadas pelos inscritos, o tempo adicional liderou com folga, somando 77.956 pedidos (34,47%). Em seguida, destacaram-se a correção diferenciada, com 42.379 solicitações (18,74%), e o auxílio para leitura, requerido por 28.042 pessoas (12,40%). A estrutura também engloba salas com acessibilidade física, intérpretes de Libras, provas em braile, leitores de tela e permissão para implante coclear ou aparelhos auditivos.
O impacto do ambiente na neurodivergência
A configuração da sala de provas é apontada pelos próprios candidatos como um fator decisivo de rendimento. Maria Clara Gonçalves, de 18 anos, aluna do 3º ano em Cotia (SP) que sonha em cursar medicina com foco em neurologia, foi diagnosticada com TDAH na adolescência e solicitou suporte especial.
“Para mim, como neurodivergente, é muito difícil estar em uma sala com outras pessoas ao meu lado, porque eu estou olhando, presto atenção no que estão falando. Gosto de ter salas com menos pessoas. Pessoas que também tem TDAH vão entender.”
A percepção é compartilhada por Isabella Magalhães, de 25 anos, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista nível 2. Ao recordar sua participação no exame em 2017, a estudante pontuou que o desgaste não decorria do conteúdo acadêmico, mas da sobrecarga de estímulos e da longa permanência na sala:
“Acho muito importante o governo estar sensível a essa questão e olhar para esse público, porque afeta muito nossa experiência. Nem é a dificuldade só da prova, que é difícil para todo mundo, mas do ambiente, do tempo que você fica lá dentro. Então acho que é importante adaptar a prova.”
Estratégias de autorregulação durante o exame
A psicopedagoga e especialista em educação especial Giselle de Oliveira Araújo, coordenadora da clínica Follow Kids no Rio de Janeiro, enfatiza que o cérebro demanda condições adequadas para expressar seu potencial:
“Minha mensagem é que esses estudantes não precisam funcionar como os outros para demonstrar o que sabem. Precisam conhecer suas necessidades e utilizar estratégias que realmente os ajudem.”
Segundo Araújo, os métodos de regulação variam de acordo com o perfil neurodivergente. “Alguns adolescentes com TDAH podem se beneficiar de pequenos movimentos para recuperar a atenção. Já estudantes autistas podem precisar de estratégias que ajudem a lidar com determinados estímulos sensoriais.”
Entre os exercícios corporais recomendados pela especialista para amenizar a ansiedade e retomar o foco durante a prova estão:
- Firmar totalmente os pés no chão;
- Perceber conscientemente o apoio do corpo na cadeira;
- Soltar e relaxar a musculatura dos ombros;
- Fazer alongamentos sutis nas mãos;
- Corrigir a postura corporal;
- Controlar a respiração de forma lenta e profunda.
Giselle ressalta que não existe um cronograma fixo para interrupções, mas sim a necessidade de notar alertas físicos de estafa, como ler repetidas vezes o mesmo enunciado ou perder a linha de pensamento. Nesses casos, desviar o olhar do caderno e respirar pode reestruturar o foco.
Ela conclui com uma recomendação sobre o preparo prévio, lembrando que os movimentos devem ser contidos para não infringir as regras do edital: “O importante é experimentar essas estratégias antes do exame, respeitando as preferências de cada estudante. Não adianta ensinar uma técnica na hora da prova se ele nunca a utilizou ou se ela provoca desconforto.”
Fonte: Agência Brasil - EBC










