Será que toda criança que apresenta dificuldade na escola é simplesmente desinteressada? Será que uma nota baixa significa falta de inteligência? E quando aquela criança que sempre foi bem começa, de repente, a perder o rendimento?
Essas são perguntas que muitos pais, professores e até os próprios estudantes fazem. E foi justamente algumas dessas questões que estiveram no centro da conversa desta segunda (10), pelo Desenvolve Leste com Saúde Mental. Abordando o tema “O papel do psicopedagogo no desenvolvimento”, a professora e psicopedagoga Cátia Vargas desenvolveu o assunto com muito esclarecimento.
“A primeira coisa que precisamos entender é simples: aprender não é apenas colocar informação na cabeça. Aprender envolve atenção, memória, emoções, motivação, relações, autoestima, ambiente e até a maneira como cada pessoa se relaciona com o conhecimento. Por isso, quando alguma coisa não está funcionando bem, olhar somente para a nota da prova pode ser pouco”, destacou a psicopedagoga.
“Ele não quer estudar” ou será que existe algo por trás?
Uma das frases mais comuns dentro de casa é: “Meu filho é inteligente, mas não quer estudar”. Pode ser verdade? Pode. Mas também pode existir muita coisa acontecendo por trás desse comportamento.
“Uma criança pode estar com dificuldade de concentração, estar ansiosa, ter medo de errar, estar passando por problemas familiares, estar sofrendo bullying, estar se sentindo incapaz depois de várias experiências de fracasso, e tantas outras emoções que nem sempre ela saberá expressar”, completa a psicóloga.
E aí começa um ciclo complicado: não consigo aprender, fico frustrado, começo a acreditar que não sou capaz, perco a motivação, tenho ainda mais dificuldade para aprender.
É justamente por isso que a Psicopedagogia procura compreender como aquela pessoa aprende e quais fatores estão dificultando esse processo, em vez de simplesmente colocar um rótulo sobre ela. Estudos sobre a atuação psicopedagógica destacam a importância de considerar aspectos afetivos, cognitivos, familiares, escolares e sociais na compreensão das dificuldades de aprendizagem.
E onde entra a saúde mental?
Hoje falamos cada vez mais sobre ansiedade, autoestima, bullying, excesso de cobrança, dificuldades de socialização e impactos do uso intenso das tecnologias na rotina de crianças e adolescentes.
Imagine uma criança que acorda e já pega o celular, passa horas alternando entre vídeos, jogos e redes sociais e depois precisa sentar para estudar conteúdos que exigem concentração e paciência.
Não se trata de dizer que “a tecnologia é vilã”. Ela faz parte da vida atual e também pode ser uma excelente ferramenta de aprendizagem. O ponto é outro: como estamos ensinando nossas crianças a lidar com estímulos, frustrações, espera, concentração e limites? A aprendizagem precisa disputar espaço com um mundo que oferece estímulos o tempo inteiro. E isso exige cada vez mais atenção de pais, professores e profissionais.
Quando a dificuldade escolar começa a mexer com a autoestima
Imagine ouvir repetidamente: “Você não presta atenção.” “Seu irmão aprende e você não.” “Você é inteligente, mas é preguiçoso.” “Se você estudasse mais, conseguiria.”
Para um adulto, talvez essas frases pareçam apenas cobranças. Para uma criança, elas podem começar a construir uma história interna muito perigosa: “Eu não sou bom.” E quando a criança passa a acreditar que não consegue, muitas vezes ela deixa até de tentar.
Por isso, uma das grandes contribuições do psicopedagogo está justamente em ajudar a compreender a dificuldade e construir caminhos possíveis para que o estudante volte a perceber que ele é capaz de aprender. Não significa facilitar tudo. Significa encontrar maneiras mais adequadas de ensinar, aprender, estimular e superar obstáculos.
Psicopedagogo não é “professor particular”
Outro ponto importante discutido na live foi a necessidade de ampliar a visão sobre o trabalho desse profissional. O psicopedagogo não está ali simplesmente para fazer a criança “tirar nota melhor”.
Seu trabalho está relacionado à compreensão do processo de aprendizagem e às dificuldades que podem aparecer nesse caminho. A atuação pode envolver avaliação, intervenção e estratégias que considerem o estudante dentro do contexto em que está inserido.
E isso pode acontecer em parceria com escola, família e outros profissionais. Porque, muitas vezes, a pergunta não deveria ser: “Por que essa criança não aprende?” Mas: “O que está acontecendo que está dificultando essa aprendizagem?” Parece uma pequena mudança de palavras. Mas muda completamente a maneira de olhar para o problema.
Família, escola e profissionais: cada um tem uma peça desse quebra-cabeça
Não adianta a escola fazer sua parte se a família não consegue compreender o que está acontecendo. Também não adianta a família fazer tudo sozinha se a escola não dialoga. E nenhum profissional consegue enxergar uma criança inteira trabalhando isoladamente. O desenvolvimento acontece em rede.
Por isso, o diálogo entre família, escola e profissionais é tão importante. A literatura sobre Psicopedagogia destaca justamente essa articulação entre aluno, família e escola na compreensão e no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem.
E quando procurar um psicopedagogo?
Não é preciso esperar a situação chegar ao limite. Queda persistente no rendimento, dificuldade frequente para acompanhar as atividades, resistência intensa aos estudos, problemas de leitura e escrita, dificuldade de organização, desatenção ou mudanças importantes na relação com a escola podem ser sinais de que vale investigar o que está acontecendo.
Mas atenção: um sinal isolado não significa necessariamente que exista um transtorno ou uma condição específica. É preciso olhar para a história daquela criança, seu desenvolvimento, contexto, rotina e funcionamento. E, quando necessário, contar com uma equipe multiprofissional.
No fim das contas, aprender também é uma experiência emocional
Talvez essa seja uma das principais reflexões que ficaram da nossa conversa. A criança não chega à escola deixando suas emoções na porta. Ela leva seus medos, suas inseguranças, suas curiosidades, suas dificuldades e suas conquistas. Por isso, falar de aprendizagem também é falar de saúde mental.
Uma criança que se sente acolhida tende a ter mais espaço para perguntar. Uma criança que não tem medo de errar consegue experimentar. Uma criança que percebe que pode aprender, mesmo que precise de mais tempo ou de estratégias diferentes, desenvolve uma relação mais saudável com o conhecimento.
E talvez seja justamente aí que esteja o grande papel do psicopedagogo: não apenas ajudar alguém a aprender melhor, mas ajudar essa pessoa a descobrir que existem caminhos diferentes para aprender. Porque nem sempre quem está com dificuldade precisa de mais cobrança. Às vezes, precisa de um olhar diferente, uma estratégia diferente e alguém disposto a descobrir, junto com ela, qual caminho funciona melhor. E isso vale para crianças, adolescentes e, por que não, para nós adultos também. Afinal, aprender é uma tarefa para a vida inteira.
Contatos:
Priscila Carvalho – Psicóloga e Psicanalista — psi.pcarvalho

Cátia Vargas – Professora e Psicopedagoga — psicopedagoga.catiavargas
Assista à live completa: https://www.youtube.com/live/2Ui5yhwXva0











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