A live desta segunda, (24), contou com a participação da psicóloga especialista em Oncologia e Hematologia – Diane Carvalho, em um papo sobre como cuidar da mente também faz parte do tratamento do câncer.
Quando alguém recebe um diagnóstico de câncer, é quase automático pensar em exames, médicos, cirurgia, quimioterapia, radioterapia e medicamentos. A atenção se volta para o corpo e precisa mesmo ser assim. Mas existe uma outra dimensão dessa jornada que nem sempre recebe a mesma atenção: a saúde emocional.
Foi justamente sobre esse assunto que a nossa host e psicóloga Priscila Carvalho conversou com a também psicóloga Diane Carvalho, especialista em Oncologia e Hematologia, durante a live intitulada: “Cuidar da mente também faz parte do tratamento do câncer”.
A conversa trouxe uma reflexão importante: o câncer pode estar no corpo, mas seus impactos ultrapassam o corpo. Medo, ansiedade, tristeza, insegurança, culpa, mudanças na rotina, alterações na imagem corporal, preocupação com o futuro e impacto nas relações familiares podem fazer parte dessa experiência. E ninguém deveria precisar atravessar tudo isso sozinho.
Psico-oncologia: afinal, o que é?
Apesar de sua importância, a psico-oncologia ainda é pouco conhecida por grande parte da população. Muitas pessoas só descobrem que existe esse tipo de acompanhamento quando o câncer chega à própria família.
“De maneira simples, podemos dizer que a psico-oncologia é um campo de atuação da Psicologia voltado às questões emocionais, comportamentais e relacionais que podem surgir diante do câncer e de seu tratamento”, destaca a convidada, Diane Carvalho.
E isso não significa que o psicólogo esteja ali para “fazer o paciente pensar positivo, muito pelo contrário. O trabalho começa, muitas vezes, justamente permitindo que a pessoa possa sentir aquilo que está sentindo sem precisar fingir que está tudo bem, completa a psicóloga.
“Preciso ser forte.” Será mesmo?
Uma das ideias mais comuns quando alguém enfrenta uma doença grave é a necessidade de ser forte o tempo inteiro.
“Você precisa ter fé.”
“Não pode pensar negativo.”
“Tem que ser forte pelas crianças.”
“Você vai vencer!”
Embora essas frases geralmente sejam ditas com boa intenção, nem sempre ajudam. A pessoa pode estar com medo, pode querer chorar, pode estar cansada, pode sentir raiva, pode não querer conversar naquele dia. E tudo isso pode fazer parte da experiência de adoecimento.
Durante a conversa com Diane Carvalho, ficou evidente a importância de acolher as emoções, e não exigir que o paciente esconda aquilo que está vivendo para tranquilizar os outros.
Sentir medo não significa desistir, chorar não significa fraqueza, pedir ajuda não significa perder a esperança. Às vezes, ser forte é justamente conseguir dizer: “Hoje eu não estou bem e preciso de ajuda.”
O câncer também afeta quem está ao redor
Existe uma pessoa que muitas vezes fica esquecida nessa história: o familiar. Quando alguém recebe um diagnóstico, a família também entra em uma espécie de território desconhecido.
Surgem perguntas:
“E agora?”
“Vai dar tudo certo?”
“Como será o tratamento?”
“E se piorar?”
“Como vou cuidar dele?”
“E se eu não conseguir?”
O familiar pode sentir medo, ansiedade, tristeza e exaustão e ainda acreditar que não tem direito de reclamar porque “quem está doente é o outro”. Mas quem cuida também precisa ser cuidado. Um cuidador emocionalmente esgotado pode ter dificuldade para oferecer o suporte necessário. Por isso, a rede de apoio precisa funcionar para os dois lados.
Quando ajudar vira invasão?
Outro ponto interessante levantado durante a live foi a figura do familiar ou cuidador que, na tentativa de ajudar, acaba ultrapassando limites. É aquele que quer acompanhar tudo, quer saber de cada exame, quer responder pelo paciente, escolhe o que ele deve comer, decide quem pode visitá-lo, fala por ele, e, muitas vezes, não percebe que está tirando do paciente algo muito importante: autonomia.
Cuidar não significa controlar. Ajudar não significa decidir tudo pelo outro. Em alguns momentos, o melhor apoio pode ser simplesmente perguntar:
“O que você precisa de mim hoje?” – E respeitar a resposta.
Medo: ele não aparece só no paciente
O medo é uma das emoções mais presentes nessa jornada. E ele não desaparece necessariamente depois do início do tratamento. O familiar também pode viver com medo do próximo exame, do resultado, de uma piora ou da possibilidade de perder alguém que ama.
“O problema não é sentir medo, é quando ele passa a dominar completamente a vida”, destaca a psicóloga Diane Carvalho.
Por isso, buscar informação confiável, manter diálogo com a equipe de saúde e contar com suporte psicológico pode ajudar paciente e família a lidar melhor com a incerteza. Não existe controle absoluto sobre o futuro. Mas existe a possibilidade de aprender a lidar com o presente.
Quando tristeza e ansiedade deixam de ser apenas uma reação esperada?
É absolutamente compreensível que uma pessoa diagnosticada com câncer apresente medo, tristeza ou ansiedade. Afinal, trata-se de uma experiência que pode mudar completamente a vida.
Mas existe uma diferença entre uma reação emocional esperada diante de uma situação difícil e um sofrimento que começa a comprometer significativamente a vida da pessoa. Mudanças persistentes no sono, isolamento intenso, perda importante de interesse pelas atividades, desesperança, dificuldade de seguir o tratamento ou sofrimento emocional muito intenso merecem atenção. Não é necessário esperar a situação ficar insustentável para buscar ajuda.
Psicoterapia também é cuidado preventivo.
O sofrimento emocional não significa que o tratamento esteja dando errado
Outro cuidado importante é não transformar toda emoção difícil em um problema.
A pessoa pode estar triste e ainda assim estar enfrentando o tratamento com coragem.
Pode estar com medo e continuar fazendo seus exames.
Pode ter um dia ruim e, no dia seguinte, estar melhor.
A saúde emocional não significa estar feliz o tempo todo.
Significa ter espaço para elaborar o que está acontecendo, encontrar recursos para enfrentar as dificuldades e preservar, dentro do possível, a qualidade de vida.
E existe uma abordagem psicológica “certa” para quem tem câncer? Essa foi uma das perguntas da nossa live.
A resposta traz uma reflexão interessante: mais importante do que simplesmente escolher uma linha teórica é contar com um profissional preparado para trabalhar com esse público e capaz de acolher a pessoa em sua singularidade.
Como destacou Diane Carvalho durante a conversa, “um bom psicólogo acolhe independentemente da linha teórica que utiliza”, desde que tenha formação, preparo e recursos adequados para compreender as demandas daquele paciente.
O câncer não é igual para todo mundo. As histórias também não. Por isso, o cuidado precisa considerar a pessoa e não apenas o diagnóstico.
Tumor, tratamento e saúde mental: cada paciente é único
Durante a live, também foi discutido que pacientes com tumores sólidos apresentam, em determinados contextos, maior ocorrência de sintomas depressivos. Isso reforça a importância de não olhar apenas para os resultados dos exames físicos. O paciente não é somente um diagnóstico, um tipo de tumor ou um protocolo de tratamento. É uma pessoa com história, família, medos, desejos, profissão, relacionamentos e projetos de vida. E tudo isso continua existindo depois do diagnóstico.
Falar sobre câncer pode ser difícil. Mas o silêncio ajuda?
Essa é uma questão delicada.
Muitas pessoas evitam conversar sobre câncer porque não sabem o que dizer. E acabam soltando frases como:
“Não pensa nisso.”
“Você precisa ser positivo.”
“Conheço uma pessoa que teve e morreu, mas você vai ficar bem.”
“Fulano teve e ficou bem.”
Ou simplesmente mudam de assunto. A intenção pode ser boa, mas, às vezes, o paciente não precisa de uma frase pronta.
Precisa de alguém que consiga dizer:
“Eu não sei exatamente o que você está sentindo, mas estou aqui com você.”
Essa talvez seja uma das formas mais humanas de oferecer apoio.
Não é necessário ter respostas para tudo.
Às vezes, presença vale mais do que conselho.
E os direitos do paciente oncológico?
Cuidar também significa informar. Pacientes com câncer podem ter direitos e benefícios previstos na legislação brasileira, que variam conforme a situação, o tratamento, a condição clínica e os requisitos de cada benefício. Por isso, informação também faz parte do cuidado. Conversar com a equipe de saúde, serviço social, órgãos públicos ou profissionais especializados pode ajudar o paciente e sua família a entender quais direitos podem ser aplicáveis ao seu caso. A pessoa que está enfrentando um câncer já tem uma jornada suficientemente complexa.
Não deveria precisar enfrentar também a falta de informação.
Cuidar de quem cuida também é tratamento
Talvez essa seja uma das grandes mensagens que ficaram da nossa conversa. O paciente precisa de cuidado, mas o cuidador também.
A mãe que acompanha o filho.
O marido que acompanha a esposa.
A filha que acompanha o pai.
O irmão que está sempre presente.
Todos eles podem precisar de espaço para falar, chorar, descansar e reorganizar a própria vida.
Porque ninguém consegue sustentar uma rede de apoio sozinho.
Quem cuida também precisa ter onde se apoiar.
Não é sobre pensar positivo. É sobre não precisar enfrentar sozinho.
Ao final da conversa, fica uma mensagem muito mais humana do que qualquer frase motivacional pronta.
Não precisamos dizer ao paciente:
“Você tem que ser forte.”
Podemos dizer:
“Você não precisa passar por isso sozinho.”
Não precisamos obrigá-lo a enxergar o lado positivo.
Podemos ajudá-lo a atravessar também os dias difíceis.
Não precisamos ter respostas para todas as perguntas.
Podemos simplesmente estar presentes.
O câncer exige tratamento médico, acompanhamento e cuidados especializados. Mas cuidar da mente também faz parte dessa jornada.
E talvez a grande lição da psico-oncologia seja justamente essa: “por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa e essa pessoa precisa ser cuidada por inteiro”, destaca a psicóloga Diane Carvalho.
Cuidar do corpo é fundamental, cuidar da mente também, e, cuidar de quem está ao lado pode fazer toda a diferença.
Porque tratamento não é apenas combater uma doença. É, sempre que possível, preservar a pessoa, sua dignidade, seus vínculos e sua qualidade de vida durante todo o caminho.
Contatos:
Priscila Carvalho – Psicóloga e Psicanalista – @psi.pcarvalho
Diane Carvalho – Psicóloga especialista em Oncologia e Hematologia @dianecarvalho.psionco
Assista à live completa pelo Youtube











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