A capital federal se prepara para receber a VIII Mostra Competitiva de Cinema Negro Adelia Sampaio a partir da próxima segunda-feira (9/11). Com uma seleção diversa e representativa, o festival apresentará 40 produções cinematográficas — entre curtas, médias e longas-metragens — vindas de 15 estados, do Distrito Federal e de nações africanas e caribenhas, como Mali, Burkina Faso, Senegal e Cuba.
Resgate histórico e tributo a Joyce Prado
A solenidade inaugural, sediada no tradicional Cine Brasília, terá como ponto alto a reverência a realizadoras negras de duas gerações marcantes. O público poderá assistir em primeira mão à exibição de Agora um Deus Dança em Mim, curta-metragem dirigido por Adelia Sampaio. A produção, que permaneceu perdida por mais de quatro décadas, passou por um processo recente de recuperação conduzido pela Cinemateca Brasileira. A narrativa visual baseia-se em uma apresentação solo da bailarina Tatiana Cobbett para refletir sobre a escassez de palcos e oportunidades para profissionais da dança no país.
“É uma emoção grandiosa, um trabalho que é o início da minha carreira e eu não esperava reencontrar, então é uma emoção grande, imensa”, disse Adelia.
A noite também celebra o legado da diretora Joyce Prado (1987-2025), falecida no último ano antes da conclusão de seu trabalho final, Quase da Família (2026). O filme joga luz sobre as reivindicações e conquistas na regulamentação dos direitos das trabalhadoras domésticas no Brasil.
A fundadora e coordenadora do festival, Edileuza Penha de Souza, ressalta que essa lembrança é indispensável pela relevância estética e política de Joyce no cenário audiovisual nacional. Além disso, o tema do trabalho doméstico perpassa toda a mostra, desde a abertura até a sessão de encerramento com Aqui Não Entra Luz, assinado por Karol Maia.
“Eu também me consagrei como cineasta com o filme ‘Filhas de Lavadeira’. Então, acho que essas obras reverenciam essas mulheres domésticas que nos possibilitaram ser o que a gente quisesse ser”, diz.
Da infância difícil ao pioneirismo no cinema nacional
Além das projeções em tela grande, a cineasta pioneira expande suas linguagens artísticas ao estrear na literatura para crianças e jovens. Na terça-feira (10/11), Adelia lança Voos e Sonhos de uma Borboleta, obra poética construída a partir de memórias dos seus primeiros anos de vida.
Nascida na capital mineira, Belo Horizonte, Adelia vivenciou uma infância desafiadora. Aos 7 anos, foi internada em um abrigo na cidade de Santa Luzia do Rio das Velhas (MG) por imposição da patroa de sua mãe, Guiomar, trabalhadora doméstica da época. O contato com a sétima arte surgiu anos mais tarde, aos 12, após passar a morar com a irmã. A aproximação transformou-se em vocação definitiva: em 1984, ela gravou seu nome na história cultural do país ao lançar Amor Maldito, tornando-se a primeira mulher negra brasileira a comandar um longa-metragem.
Programação e locais das atividades
A abertura oficial ocorre no Cine Brasília no dia 9 de novembro, a partir das 19h20. Toda a grade subsequente da mostra competitiva será sediada no Anfiteatro 10 da Universidade de Brasília (UnB), entre os dias 10 e 14 de novembro. O lançamento do livro de Adelia Sampaio também acontece no Anfiteatro 10 da UnB, no dia 10, às 16h.
Fonte: Agência Brasil - EBC










