A trajetória literária de Eliana Alves Cruz começou a tomar forma após um período de exaustão profissional que a levou ao burnout em 2009 e 2010. Jornalista de formação e com passagens intensas pela comunicação esportiva, ela decidiu canalizar sua vocação de infância para a pesquisa histórica, resultando em seu livro de estreia, “Água de Barrela”.
A pesquisa familiar e a redescoberta da história
O romance inaugural nasceu de um mergulho profundo nas memórias de seus familiares e de documentos preservados por sua madrinha. A investigação revelou que seus antepassados foram escravizados pela poderosa família Tosta, no Recôncavo Baiano. Para a autora, a investigação exigiu o rigor metódico do jornalismo somado à sensibilidade literária, permitindo “escovar a história a contrapelo”, termo inspirado pelo filósofo Walter Benjamin.
O projeto literário focado na vida negra
Com o sucesso de sua estreia, Eliana consolidou um projeto de investigação da vida negra no Brasil por meio da ficção, desdobrando-se em obras como “O crime do Cais do Valongo” e o premiado “Meridiana”. A autora aponta que o racismo e a escravidão aparecem de forma indissociável dessas narrativas, refletindo as complexidades de qualquer núcleo familiar atravessado por dinâmicas de exclusão.
A crítica à falta de representatividade no Prêmio Jabuti
Em 2026, a romancista conquistou seu segundo troféu Jabuti com “Meridiana”, após ter vencido em 2022 na categoria Contos com “A vestida”. Ao comentar a premiação, ela destacou o atraso histórico do reconhecimento: “Isso é um retrato de uma sociedade que não quer encarar a própria exclusão ou prefere taxar todo mundo de identitarista, em vez de reconhecer que realmente há algo que precisa ser transformado”.
A escritora também pontuou o impacto simbólico da conquista: “Acho que deveria causar mais estranheza o fato de eu ter sido a primeira mulher negra a ganhar. Veja: foram 68 anos para uma mulher negra ganhar o prêmio de melhor romance do Brasil. Não é possível! Carolina Maria de Jesus, gente, Conceição Evaristo, a própria Ana Maria Gonçalves… Tantas escritoras e tantos romances poderiam ter subido àquele palco para ganhar esse prêmio.”
Novos projetos e o futuro na literatura
Além de expandir a coleção “Crimes Coloniais” pela editora Record, a autora manifestou o desejo de retornar à televisão com o programa “Trilha de Letras”, na TV Brasil. Para os novos escritores, Eliana deixa um conselho direto para o desenvolvimento profissional: “Eu diria para não desistirem. Para escreverem. A escrita precisa de um ativo chamado tempo, o que não é fácil para as pessoas negras no Brasil.”
Fonte: Agência Brasil - EBC










