A tuneladora Cora Coralina, apelidada de “Tatuzão”, concluiu em setembro a travessia sob o Córrego Aricanduva, um dos pontos mais sensíveis da expansão da Linha 2-Verde do Metrô de São Paulo. A operação faz parte do segundo trecho de escavação da obra, que liga a região da Penha ao Complexo Rapadura, na Zona Leste da capital, e exigiu soluções especiais de engenharia para proteger redes de esgoto e outras utilidades públicas instaladas sob a Avenida Aricanduva.
A cerca de 10 metros abaixo do leito do córrego, a máquina atravessou um trecho onde qualquer movimentação do solo poderia comprometer estruturas enterradas. A atenção redobrada teve relação direta com dois coletores-tronco de esgoto da Sabesp, com diâmetros de 1,2 metro e 2,1 metros, responsáveis por transportar grande volume de esgoto de toda a Zona Leste. Esses coletores funcionam como espinha dorsal do sistema sanitário da região, e qualquer dano poderia gerar transtornos a milhares de moradores.
Para reduzir riscos, o Metrô instalou sistemas provisórios de bombeamento, que transferiram o fluxo de esgoto entre poços de inspeção localizados antes e depois do ponto de passagem da tuneladora. Essa estratégia permitiu que a obra avançasse sem interromper o funcionamento normal da rede de esgotamento, mantendo o serviço operando durante toda a travessia. No caso do coletor de 1,2 metro, a solução contou ainda com um desvio auxiliar por gravidade, garantindo redundância durante períodos de chuva.
O maior desafio esteve concentrado no coletor de 2,1 metros de diâmetro. Segundo o Metrô, o solo mole, o intenso tráfego da Avenida Aricanduva, a profundidade da rede e o conflito com estruturas de outras concessionárias inviabilizaram a abertura de valas para uma tubulação auxiliar convencional. A alternativa foi uma comporta especial, desenvolvida sob medida pela empresa Amanco Wavin e instalada em um poço de inspeção, capaz de controlar o fluxo e transformar a própria galeria em sistema de segurança contra vazões excepcionais em dias de chuva intensa. Essa solução evitou intervenções de maior porte na superfície, reduzindo o impacto no trânsito da avenida.
Além das ações emergenciais durante a passagem da tuneladora, o Metrô programou a reabilitação estrutural permanente do coletor de 2,1 metros, que seguirá sobre o futuro túnel durante toda a vida útil do empreendimento. A técnica escolhida foi a Spiral Wound Pipe Rehabilitation (SPR), da Amanco Wavin, aplicada, segundo a companhia, pela primeira vez em uma obra metroviária no Brasil. O método permite reforçar a tubulação mesmo com o esgoto em funcionamento, por meio de um equipamento robótico que insere um perfil de PVC em espiral no interior da galeria existente. Em seguida, o espaço entre a estrutura antiga e a nova é preenchido com graute de alta resistência, argamassa fluida capaz de ocupar vazios onde o concreto convencional não penetraria. O resultado é uma tubulação mais durável, resistente a movimentações do terreno e com menor rugosidade interna, o que preserva a capacidade de transporte de esgoto mesmo após décadas de uso.
Durante toda a travessia, equipes utilizaram instrumentos de monitoramento geotécnico no solo, nas redes da Sabesp, no canal do córrego e em um gasoduto da Comgás existente na região. Inspeções por vídeo com equipamentos robotizados foram feitas antes e depois da passagem do Tatuzão para confirmar a integridade das estruturas subterrâneas, garantindo segurança tanto para a obra quanto para a população do entorno.
Segundo o Metrô, desde a partida na Penha, a tuneladora já percorreu mais de 1 quilômetro, com a instalação de 598 anéis de concreto, e se encontra atualmente entre a Estação Aricanduva e o VSE Júlio Colaço. Somando os dois trechos de escavação, o equipamento já construiu cerca de 4,7 quilômetros de túneis, consolidando o avanço da obra rumo ao Complexo Rapadura. A expectativa é que a conclusão dessa etapa represente um marco importante para a futura operação da linha, ampliando a mobilidade de milhares de moradores da Zona Leste.










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