Para julgar a excelência de um destilado com precisão cirúrgica, até mesmo o uso de perfumes ou o ato de mascar chiclete precisam ser evitados. Esse nível de exigência marcou a realização do III Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista, sediado na Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA). Durante dois dias de trabalho, um júri formado por 20 provadores especializados analisou mais de 140 bebidas para eleger as produções de maior destaque do território paulista.
Critérios técnicos e degustação às cegas
Todo o processo de avaliação ocorreu às cegas: as garrafas foram identificadas exclusivamente por códigos numéricos para resguardar o anonimato das marcas. Além disso, todos os produtos inscritos contam com registro obrigatório junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), comprovando a legalidade da fabricação.
A coordenadora do Grupo de Estudos da Cadeia da Cachaça de Alambique (GECCA) e pesquisadora da APTA Regional de Bauru, Elisângela Jerônimo, ressaltou que a prova dos jurados é amparada por checagens prévias laboratoriais. “O julgamento sensorial é uma das etapas mais importantes de todo o processo do concurso, porque é nesse momento que a qualidade da bebida é avaliada por meio dos nossos sentidos. É importante destacar que, antes de chegar a essa etapa, as cachaças passam por uma conferência da documentação e dos laudos de análise química, que verificam se atendem aos padrões legais de qualidade”, explicou.
A dinâmica de análise técnica é dividida em quatro fases fundamentais: exame visual, olfativo, gustativo e a impressão final deixada no palato.
Equilíbrio sensorial e rigor da matéria-prima ao envase
Presente no corpo de jurados desde a primeira edição, o especialista e autor de publicações sobre o tema Jairo Martins detalhou os parâmetros fundamentais procurados pelos avaliadores. “Ao longo desse processo, são avaliadas características como limpidez, brilho, cor, intensidade, natureza, acidez, qualidade e harmonia da bebida. Além disso, o processo de produção, especialmente os cuidados com a higiene, é um fator decisivo para a qualidade da cachaça”, explicou.
A atenção às boas práticas ao longo de toda a cadeia também foi pontuada pela jornalista e sommelier Amarillis D’Angelo, criadora do perfil Drink Comigo. Participando pela segunda vez da bancada julgadora, ela reforçou que o padrão do destilado reflete cada etapa de elaboração: “Todo o processo produtivo importa para chegar a uma cachaça de qualidade, desde o plantio da cana até o cuidado no envase do líquido”.
Categorias e expansão da coquetelaria
Para contemplar as diferentes vertentes de produção, a disputa foi estruturada em sete classes: branca, armazenada, envelhecida em carvalho, premium, extra premium, madeiras brasileiras e blend. A divisão respeita variáveis como maturação, espécies de madeira utilizadas nos tonéis e misturas entre lotes.
Estreante na comissão de avaliação, a influenciadora Cinthia Miotto, à frente do canal Garota do Drink, destacou a relevância de valorizar o produto nacional no segmento de coquetéis. “É uma honra participar desta análise, principalmente por acreditar no potencial da cachaça e ter a oportunidade de mostrar a mais pessoas o profissionalismo com que a bebida é produzida. Ver tantos rótulos sendo avaliados demonstra o quanto o setor está evoluindo e investindo em qualidade. Quanto mais conhecemos a cachaça, mais motivos temos para nos orgulhar de produzir algo tão nosso”, celebrou.
O protagonismo da cachaça no cenário paulista
O anúncio dos vencedores do concurso está agendado para dezembro deste ano. Somadas as edições anteriores, a iniciativa já ultrapassa a marca de 200 bebidas submetidas ao crivo de especialistas, impulsionando a competitividade regional.
Atualmente, São Paulo ocupa o segundo lugar nacional no ranking de produtores da bebida. Dados do Anuário da Cachaça 2026 contabilizam 230 empresas produtoras e 1.185 cachaças registradas no estado. O setor conta ainda com as Rotas da Cachaça de São Paulo, abrangendo mais de 80 alambiques espalhados por 65 cidades, além da primeira Indicação Geográfica (IG) paulista do segmento, concedida à região do Circuito das Águas.
Fonte: Agência SP










